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Onde está papai?

Martha Medeiros

Este ano, o comercial de Dia dos Pais que mais me chamou a atenção foi aquele que mostrava uma garotinha de uns quatro anos capturando, pelo celular, os sons de uma casa de praia. Ela aproximava o aparelho do portão de entrada da casa, para que a pessoa do outro lado da linha pudesse ouvir seu rangido. Aproximava o celular da chaleira que apitava em cima do fogão. Do tic-tac de um relógio de parede. De uma gravação que saía do seu ursinho de pelúcia. Por fim, ela voltava ao aparelho e perguntava alguma coisa como: “E aí, pai, deu pra matar a saudade?”. Quem assinava este bonito comercial era, logicamente, uma companhia telefônica, e encerrava com um locutor dizendo: “Fique mais perto do seu pai”, pois, como se sabe, os pais estão sempre longe.

É um fato ou é uma impressão?

Mães nunca estão longe, ao contrário, mãe é onipresente, não raro sufocante. Jamais veremos um comercial de celular mostrando uma filhinha ligando para a mamãe que está no Taiti curtindo férias com as amigas ou trabalhando há dias num seminário em São Paulo, simplesmente porque mães não se ausentam.

Outra vez: é um fato ou é uma impressão?

Um pouco de cada. Que as mães são mais envolvidas com a criação dos filhos, não se discute. Isso dá-se mais por razões biológicas do que afetivas, nasceu de nós, é mais nosso do que do pai, assim parece. Pode não ser justo, mas é o quadro que se apresenta, salvo exceções em que a mãe não está nem aí e só pensa em si mesma.

Já os pais, pelas mesmas razões, são quase que incentivados a se sentirem menos obrigados à presença. Se cumprem com seus deveres de provedor, não será grave distanciar-se dos filhos por causa de viagens de negócios ou por ter constituído nova família em outra cidade. Institivamente, quase sem notar, passamos adiante para nossos filhos a ideia de que pai longe é coisa natural.

O que é preocupante é que todo distanciamento passou a ser natural. Hoje, homens e mulheres precisam passar o dia inteiro fora de casa, trabalhando, e alguns mais tempo que isso, viajando. Estão todos ocupados, precisando correr atrás do seu sustento. Não são só os pais que estão longe. Mães também têm andado de um lada para o outro, e às vezes estão em casa só de corpo presente, porque a cabeça, sabe-se lá onde.

Estamos, todos, mais ausentes.

Culpa de quem? Da vida. E um pouquinho da nossa falta de atenção.

No entanto, segue o pai com a fama de desbravador, aquele que sai de manhã para caçar, e se levar 10 dias para voltar com o alimento, nada de reclamações: ele está apenas cumprindo o seu papel. Segue o pai fazendo falta, porém uma falta consentida, quase honrosa, que muitas vezes gera até mais orgulho do que saudade. Ele está indo à luta por nós. E se não é nada disso, se papai se mandou e não olhou para trás, é triste, mas fazer o quê? Coisa de homem.

É um fato ou é uma impressão?

A gente não se dá conta da facilidade com que nos acostumamos a certas convenções. Mãe perto, pai longe. Mãe na cozinha e ele sentado na “cadeira do papai”, isolado em seu trono, e não atirado no sofá, embolado com todo mundo. Ainda há algo antigo no ar, que de certa forma perpetuamos. Prefiro achar que pai moderno não é o que tem sua distância cultuada e que tem notícias nossas pelo celular, e sim aquele que está atirado no sofá, embolado com todo mundo.


Domingo, 13 de agosto de 2006.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.